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Nenhuma crise na economia americana pode ser ignorada. Mas o país nunca esteve tão preparado para enfrentá-la como desta vez| 07.02.2008 Porto de Xangai: a pauta de exportações diversificada reduz o risco do BrasilPor Roberta PaduanEXAME Desde o início de janeiro, o m undo prendeu a respiração diante do recrudescimento da crise do setor financeiro internacional e da crescente possibilidade de uma recessão nos Estados Unidos. A apreensão é, sem dúvida, justificada. O epicentro da atual crise é um país que responde por quase um terço de toda a riqueza produzida no mundo, o dínamo do sistema financeiro global. O que dá um tom ainda mais dramático à situação é a falta de consenso nas previsões dos economistas -- que hoje mais parecem motoristas sem visibilidade em meio a um temporal. Nesse debate, despontam duas questões: de quanto será a desaceleração americana e quais serão seus efeitos no restante do mundo? O Fundo Monetário Internacional divulgou dados no final de janeiro que afastam, pelo menos por enquanto, a idéia de uma crise na economia mundial. A estimativa para 2008, já revista por causa da crise, está em 4,1% (ante 4,9% em 2007), enquanto a projeção para os Estados Unidos é de um crescimento de 1,5% (ante 2,2% no ano passado) -- números pouco reluzentes, mas nem um pouco catastróficos. No Brasil, as evidências demonstram a existência de duas realidades distintas: a da bolsa de valores e a do setor produtivo. Os investidores de ações foram protagonistas de um dos piores começos de ano da história da Bovespa -- as perdas totalizavam 4% até o feriado de Carnaval. Já executivos da indústria e do varejo continuam ocupados com seus planos de vendas e expansão. "É preciso separar o comportamento das bolsas de valores do que ocorre na economia real", afirma o economista Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central. "É claro que esses dois mundos são interligados, porém o mercado financeiro oscila muito e de forma mais rápida, com base em mudanças que não chegam necessariamente a afetar o restante da economia." No ano passado, enquanto o mundo já se debruçava sobre a possibilidade de uma recessão nos Estados Unidos, o Brasil bateu recorde em investimentos diretos estrangeiros, recebendo quase 35 bilhões de dólares para aplicar em aquisições, fusões e ampliações de empresas. "As pessoas estão falando como se a economia americana e a mundial fossem derreter, e não é disso que se trata", afirma o economista Paulo Leme, diretor do banco americano Goldman Sachs para mercados emergentes. Na fábrica da Fiat no Brasil, o problema é acelerar a produção para dar conta de um mercado que bateu recorde de vendas no ano passado e já começou 2008 com um ritmo forte. Em janeiro, a prévia de emplacamentos de automóveis e veículos comerciais leves registrou crescimento de 37% em relação a janeiro de 2007, o melhor resultado da história. "Não trabalho com o cenário de crise", afirma Cledorvino Belini, presidente da subsidiária brasileira da Fiat. Segundo Belini, os investimentos de 5 bilhões de dólares previstos entre este ano e 2010 estão confirmados. O horizonte para os próximos três anos é igualmente positivo na subsidiária da fabricante de eletroeletrônicos LG. A estimativa é que a venda de aparelhos celulares no Brasil cresça 30% em 2008. "Não há emoção nessa análise", diz Alexandre Jesus, diretor de vendas da divisão de celulares da LG. "Até agora, com as informações de que dispomos, o mercado doméstico continua bem aquecido." O plano de negócios da divisão de celulares da empresa foi finalizado em dezembro e revisado em janeiro, mantendo para este ano tanto as projeções de crescimento quanto a ampliação de sua fábrica, em Taubaté, no interior de São Paulo.
UM DOS PILARES QUE SUSTENTAM O OTIMISMO empresarial é o aumento do crédito. Em 2007, o volume disponível no país bateu novo recorde: ultrapassou 930 bilhões de reais, atingindo quase 35% do PIB -- em 2002, o índice limitava-se a 22%. A queda da taxa básica de juro nos últimos dois anos e meio -- de 19,75% para 11,25% -- foi o que detonou esse processo. E mesmo que neste ano a Selic pare momentaneamente de cair, como prevê a maioria dos analistas, dificilmente irá barrar a expansão, ainda que mais tímida, do crédito. "O aumento do nível de emprego e a elevação de renda do trabalhador, mesmo que discreta, levaram mais gente às compras, especialmente de alimentos e vestuário, e não enxergamos nada no horizonte que deva mudar esse cenário", afirma o empresário Ivo Rosset, dono da Valisère, fabricante de lingerie, e da Companhia Marítima, de moda praia. Apesar de o país ainda colecionar várias deficiências macroeconômicas -- traduzidas principalmente por uma carga tributária de 34% do PIB, que drena recursos de empresas e consumidores para sustentar um Estado perdulário --, há consenso de que a economia brasileira mudou de patamar nos últimos dez anos. "Prova disso é que em janeiro, no olho do furacão, o risco-país e a cotação do dólar mantiveram-se quase inalterados", afirma o economista Luiz Rabi, da consultoria MCM. A explicação para essa relativa tranqüilidade está no salto de qualidade de vários indicadores econômicos. A mudança fica flagrante na comparação da situação atual com a que o país viveu em 1998, ano em que se deu a crise da Rússia. Na época, o Tesouro contava com apenas 44 bilhões de dólares em reservas, o que não cobria nem 20% da dívida externa. Hoje, as reservas cambiais, de 185 bilhões de dólares, cobrem quase toda a dívida. No passado, em situações de turbulência nos mercados financeiros, o Brasil recorria sistematicamente a empréstimos estrangeiros para conseguir dólares e honrar as dívidas externas. Atualmente, o perfil da dívida é outro e a maior parte dos dólares chega por meio de exportações. Além disso, o país possui uma pauta de exportações variada e um grande leque de mercados compradores. Nenhum dos itens exportados pelo Brasil atinge 15% do total das vendas externas, situação muito diferente da do Chile, onde o cobre representa 57% do total exportado. "As exportações brasileiras também têm menos chances de desabar em caso de uma crise estrangeira, porque o país não possui relação de extrema dependência com nenhum mercado", afirma Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados. "É o contrário do México, cujo destino de 86% das exportações é os Estados Unidos." Todo o cenário otimista projetado para a economia brasileira depende da premissa de que os Estados Unidos passarão, no máximo, por uma recessão branda. Se a crise se aprofundar, as expectativas em relação ao Brasil serão alteradas. Os indícios ainda são de uma crise séria, mas não dramática, lá fora. De acordo com um estudo da consultoria MCM, as recessões americanas têm sido mais breves e mais brandas nas últimas décadas. Fora isso, o impacto das crises americanas sobre a economia mundial tem diminuído desde a segunda metade dos anos 80. O mesmo estudo mostra que até 1985, quando a economia dos Estados Unidos retrocedia um ponto percentual, o conjunto da economia mundial retrocedia 0,90 ponto percentual. Após 1985, esse impacto diminuiu para 0,75. A aposta agora é que essa relação tenha caído um pouco mais em razão do crescimento dos países emergentes. A redistribuição do peso econômico global fica clara na importância que os países do Bric -- sigla que designa Brasil, Rússia, Índia e China -- ganharam em duas décadas. Nos últimos 15 anos, o bloco dobrou sua participação no PIB mundial. "Minha avaliação é que os Estados Unidos passarão por uma recessão breve e que essa desaceleração será amortecida por outras economias que estão mais fortes atualmente", afirma Leme, do Goldman. "Hoje, o Brasil é muito mais senhor do seu destino, mas tem de aceitar essa posição e continuar melhorando." Foi uma soma de avanços que proporcionou ao país uma condição mais confortável para enfrentar a crise atual. O ineditismo dessa situação ainda causa estranheza. Os Estados Unidos já espirraram e o Brasil não foi para o hospital. |
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