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A inflação volta a preocupar Imprimir E-mail

Para a maioria dos analistas ouvidos por EXAME, a alta recente dos preços deve interromper a trajetória de queda da taxa básica de juro. E isso mexe com os investimentos pessoais

Jair Magri

Mercado Municipal de São Paulo: a comida ficou mais cara

 | 07.02.2008

Por Fabiane Stefano

EXAME Depois de anos fora do radar dos analistas econômicos, a inflação -- chaga que atormentou o país por décadas -- voltou ao centro das discussões. Ninguém prevê, claro, o retorno dos tempos de instabilidade, mas o fato é que, após quatro anos de quedas consecutivas, a taxa de inflação voltou a subir no final de 2007. O espasmo nos preços foi responsável por empurrar o IPCA, índice oficial adotado pelo governo, para 4,46% em 2007, muito próximo da meta de 4,5%. Em 2008, a perspectiva é que a inflação não ceda, podendo estourar o limite estabelecido, que novamente é 4,5%. Num cenário mais pessimista, já há quem imagine que a inflação deste ano suba um degrau em relação à taxa do ano passado.

É em razão dessa nova dinâmica que um número crescente de analistas não descarta a hipótese de o Banco Central aumentar a taxa de juro, a Selic, ao longo dos próximos meses. Caso isso se confirme, os reflexos serão imediatos para os investidores que aplicam em fundos de renda fixa, além de afetar indiretamente todos os demais investimentos (leia reportagem na pág. 62). A expectativa de um possível aperto monetário cresceu após a última ata do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável pela definição da Selic, anunciada nas vésperas do Carnaval. A ata confirma a preocupação com o tema do presidente e dos diretores do BC, os integrantes do Copom, reforçando o padrão conservador em vigor na instituição há pelo menos nove anos, quando o sistema de metas de inflação foi instituído. Em poucas palavras, ninguém mais duvida que, se necessário, os juros subirão. "As chances de uma mudança na Selic aumentaram e a ata do Copom mostra isso com clareza. O BC está mais preocupado agora do que estava na reunião de dezembro", diz Alexandre Schwartzman, economista-chefe do banco Real e ele próprio um ex-diretor do BC.

Por ora, as atenções dos analistas estão voltadas para o setor de alimentos. Embalado pelo aumento das cotações das commodities agrícolas em todo o mundo, o preço dos alimentos no Brasil disparou em 2007 e ainda gera apreensões, mas a previsão dos economistas é que a partir de março haja uma redução nesses itens em razão da possibilidade de desaceleração da economia global. O perigo, no entanto, deve se mover para o setor de serviços, em boa parte regido por contratos. Já no ano passado a inflação medida pelo IGP-M, índice de preços que reajusta vários tipos de contrato, como aluguéis, planos de saúde e escolas, subiu quase 8%. Em teoria, a alta do IGP-M não é obrigatoriamente repassada ao consumidor -- em anos de economia mais fraca, os reajustes previstos nos contratos são negociados e apenas parcialmente incorporados aos preços. Com a economia aquecida e a demanda em ascensão neste começo de 2008, porém, espera-se que a elevação do IGP-M efetivamente chegue aos cidadãos. Um exemplo disso está na área de educação. A expectativa é que as mensalidades das escolas particulares de ensino fundamental e infantil em todo o país subam entre 5,5% e 11,5%. Aumentos na mesma proporção são esperados em maio, quando os planos de saúde fazem reajustes.

 

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Outra fonte de preocupação deverá vir de preços administrados pelo governo, como energia, gás e água. Em 2007, no setor de energia, por exemplo, algumas distribuidoras tiveram até que reduzir os preços devido a uma negociação ocorrida com o governo. Espera-se para este ano que os índices de correção previstos nos contratos de energia sejam aplicados na sua totalidade, o que vai gerar alta no preço, estimada pelo próprio BC em 3,5%. "Em 2008 haverá uma troca de pressões. Diminui a importância dos produtos agropecuários e aumenta a dos serviços", diz Salomão Quadros, coordenador do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas. Além disso, ninguém pode eliminar a possibilidade de mais surpresas negativas ao longo do ano. "Os momentos mais críticos serão no segundo e no terceiro trimestre, quando teremos uma noção mais clara da inflação e da atividade industrial, que está bastante aquecida", diz Schwartzman, do Real.

MESMO QUEM JA TRABALHA com a possibilidade de alta nos juros descarta um movimento brusco por parte do BC. A maioria acredita que ela virá gradativamente. Por isso, o investidor saudoso dos tempos de Selic alta e retornos gordos vai se decepcionar. "Acabou a era da paulada nos juros. A volatilidade na Selic é bem menor hoje", diz Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central. "Caso as expectativas se deteriorem demais, a taxa de juro, hoje em 11,25%, poderá fechar o ano no máximo em 13%." Até recentemente, uma crise internacional de proporções semelhantes à atual exigiria reação muito mais dura por parte do BC. "O país mudou. E a crise terá pouca influência sobre a inflação e os juros", diz Loyola.

A expectativa de uma alta nos juros já preocupa alguns setores da economia real. As empresas convocam consultorias e bancos para traçar suas ações diante de uma mudança de cenário. A construtora Klabin Segall, por exemplo, está atenta aos humores do mercado. Na construção civil, a elevação da Selic produz efeito perverso. Ao mesmo tempo que encarece os custos de captação das empresas, afasta o consumidor do financiamento imobiliário. "O setor é muito sensível ao aumento da taxa de juro porque mexe com a disposição do cliente de comprar um imóvel", diz Ernane Abrahão, diretor da Klabin Segall. Apesar da preocupação, a empresa ainda não mudou seus planos para 2008.

Histórico de Respeito (Clique aqui para ver a imagem)

O risco de inflação, é bom que se diga, não ronda apenas o Brasil. O perigo está à espreita tanto em economias maduras como em países em desenvolvimento. Na zona do euro, a inflação de 2007 foi de 3,1%, a maior desde a criação da moeda comum, em 1999. Na China, os índices que medem os preços indicam aumento de 6,9% em 2007, o maior em 11 anos. E a inflação americana de 4,1% em 2007 foi a maior nos últimos 17 anos. Para o Brasil, a boa notícia é que a inflação em todas essas partes do mundo tem pouca chance de contaminar a economia doméstica. Os nossos vilões da alta de preços são todos verde-amarelos.

 
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